terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

SABEDORIA DE CRIANÇA !!!

A música tem o incrível poder de devolver pedaços de nossa alma...
Estou ouvindo Beto Barbosa, e lembrando das festas naquele barraco, e na casa da Joana, aniversários da Ju... O povo dançando até o dia amanhecer! Trocavam de pares, dançavam os mesmos a noite toda, e um dia eu vivi em família... Saudades??? Rs, só acho que, eu não precisava crescer nunca...
Com tudo o que vivi, experimentei, senti, talvez nada me faça feliz hoje como fui naquela época...
Meu pai fazia festas no barraco de dois cômodos: Cozinha sem mesa, ocupada e recheada de gente dançando... E nas camas, quem ia desistindo da Babilônia, e dormia todo mundo junto!
Eu ficava feliz só de ficar sentada assistindo a empolgação do povo, rsrs... Depois que meu pai se foi, as festas tops eram nos aniversários da Juliana, que sempre bombava, e comíamos " beijinho mulato "...
A Márcia e o Damião ficavam até o final, e contava pra gente os bafões do fim da festa, tipo, quem chorou, quem se declarou, quem entregou as putarias, quem vomitou de tanto beber...
O foda, é que a gente só dá real valor à esses momentos quando crescemos, quando saímos da casa da mãe...
A monstruosa diferença entre a infância e a fase adulta é que tudo na infância é fantástico, é mágico, é incrível, e nós mesmos quando crescemos estamos sempre pra lá e pra cá, não dançando, mas numa correria doentia por sei lá o quê! A monstruosa diferença entre o passado e o presente é que nunca estamos contentes com o presente e que do passado só lembramos as coisas boas... Dessa forma, o passado sempre será melhor!
A grande diferença entre ser criança nos anos oitenta e ser criança hoje é que, naquela época, nossos pais não tinham as condições financeiras de arcar com mimos, e os pais de hoje entopem os filhos com mimos já pra não encherem o saco...
Apanhei na infância porque quebrava as panelas da minha mãe, e hoje, para que as mães fiquem tranquilas nas redes sociais, deixam os filhos colocar fogo na casa...
Tudo mudou drasticamente, tudo piorou, as crianças não sabem o que é pedir e não ter... Elas não ouvem " não " !
Os pais com a desculpa de educar dando de tudo, vai criando um ser mutilado, incapaz de usar as próprias pernas e os próprios braços para agir, e assim crescem milhares de vagabundos neste país, nas costas dos pais, porque não levou um tapa sequer!
E agora tem essa Lei de não poder bater nas crianças... Apanhei pra caralho, e tô muito bem, amo minha mãe, e nem me lembro da dor das chineladas... Bater não mata, criar um monstro pra sociedade sim!
A grande verdade é que o povo transa inconsequentemente, e o resultado são bebês! Bom, daí, não se importando em constituir um ser humano para somar à sociedade, criam os filhos com comida e tá muito bem, até eles crescerem e se revelarem...
Engraçado que todo bom adulto que conheço, todo trabalhador honesto e compromissado, apanhou pra caralho na infância, teve mães opressoras como a minha, que só de olhar pra gente já dava vontade de não existir!
Todo erro vem do início: Não há planejamento para se fazer filhos, tipo, colocar no papel mesmo... Ah, é só uma criança pra encher de brinquedos... Não é não! É uma alma humana, cheeeeeeia, coberta de dúvidas, inseguranças, falta de fé e amor, e que nasceu através de seus pais justamente pra se entender e espalhar o que sabe...
Daí o povo faz filho numa ficada zuada da balada... Nasce a criança no lar da avó, porque os pais, claaaaaaro, são separados... E aí a criança cresce vendo a mãe engravidar de caras que não valem o prato que come, e a quantidade de irmãos vai crescendo, até que o mais velho cumpra o papel de pai e mãe da família, porque a mãe quer se divertir, coitada...
A criança cresce com trauma de cuidar do filho dos outros, pois que, por mais que sejam seus irmãos, são filhos dos outros, e não seus... Já nem quer casar e ter filhos, mas também não teve instrução alguma, ninguém aconselhou a seguir seu coração, e assim a criança adulta repete os erros dos pais...
É terrível isso, porque muitas crianças que cresceram comigo na Vila Flávia vivem a vida que descrevi... Crianças que brincaram comigo enquanto os adultos dançavam Beto Barbosa, hoje caíram no vício das drogas e álcool, são incapazes de criar os próprios filhos, frequentam presídios para visitas de cônjuges... Fazem filhos nos presídios!!!
A minha família mesmo, nos últimos seis ou sete anos se desmembrou! Quando vou ver minha mãe, fico sabendo dos casamentos e falecimentos do povo da rua, do povo da família... Acontece que na minha infância, todo mundo morava praticamente no mesmo quintal! Daí todo mundo cresceu, casou, arrumou filhos e cantos diferentes pra morar, e acho, acredito, que hoje seria quase impossível reunir todos de novo!
Foi muuuuuuuito difícil pra mim os meses que se seguiram após eu deixar São Mateus, minha família e meus vizinhos da vida toda... Chegava a chorar mesmo, tamanha saudade! Tudo o que vivi, todas as brincadeiras, todas as noites batendo papo com o povo, os jogos de vôlei, a amizade com a Fabiana (Minha melhor amiga da infância), as brincadeiras nas vielas, as descobertas de novos lugares para brincar de esconde-esconde, as histórias mal assombradas que os adultos contavam, a loira do banheiro da escola...
Rsrs, os anos dourados no João Camargo foram na adolescência, sem dúvida! Que saudade daquela galera, dos rolês pelas salas dos outros, kkkkkkkkkkkkkk, de ser expulsa da sala de aula dos outros!
E a gente sempre acha que nossa vida vai melhorar quando crescermos... Aham!!!
Eu tinha a ilusão de que seria mais feliz por trabalhar e ter meu próprio dinheiro para morrer de comprar CD's de rock... Não que isso tenha sido lá tão diferente, mas, com toda a limitação que a infância e adolescência emprega, com toda a dependência financeira e familiar, com toooooooooda a falta de conhecimento sobre a maioria das coisas, nós vivíamos com mais tesão! Tinha gosto amanhecer e planejar uma nova brincadeira!
Eu não precisava saber das coisas que sei hoje...
Eu não precisava pensar nem decidir sobre nada...
Eu não precisava de conselhos para seguir meu coração NAQUELE MOMENTO, pois já o fazia!
Eu não podia ter os brinquedos que apareciam nas propagandas na semana do dia das crianças, nem as bolachas recheadas dos supermercados que minha mãe fazia compras... Eu não podia ver o Natal no Center Norte, nem falar com o Papai Noel... Rsrs, cresci, fiz tudo isso, e mesmo sem ter, naquela época era melhor!!! Deve ser porque, naquela época, era tudo o que eu queria!!!
Quando vamos ser maduros o suficiente para viver o presente, como uma boa criança vive???
Quando vamos deitar no gramado verde, olhando as estrelas, e apenas viver só isso, apenas isso, como a inteligente criança vive???
O que nós sabemos, diante da sabedoria das crianças???

Now.

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