sábado, 28 de janeiro de 2017

" PODE VOCÊ VIVER SEM CORAÇÃO? " - CALUNGA


" QUE BELEZA QUE É UM SÓ MOMENTO. Num só momento, a gente pode mudar tanta coisa, não é minha gente? Num só momento a gente pode chegar, abrir o coração e abraçar aquele amigo, aquela amiga, que está ali, sustentando uma amizade, apesar da sua incompreensão, do seu mau gênio, apesar do seu problema.
Num só instante, você pode voltar seus olhos para a beleza daquele companheiro de todas as horas, daquele bichinho que você tem em casa, que lhe faz companhia, e lembrar nele de toda a humanidade. É tão interessante que o animal possa expressar mais humanidade que o homem.
A gente percebe, então, que a natureza tem formas belíssimas de fazer com que você acorde para a grandeza. É nas pequenas coisas que há grandeza. É o sol penetrando pela janela da cozinha na manhã seguinte, lembrando-o de que tudo vai continuar, apesar da noite tortuosa, apesar da nuvem de problemas que você tem na cabeça.
Um só instante é suficiente para você ver a água correndo da torneira e pensar:
 - Meus Deus, essa água vem do rio, da represa. Milhares de pessoas trabalham para que essa água, inocentemente, passe pela minha torneira, role na minha pia, encha a minha caneca para fazer o café. - E você toma o café e diz:
 - Que aconchego esse líquido saboroso, espumante, entrando em mim, acomodando o meu estômago, me acarinhando por dentro! Que coisa boa que a natureza me traz num instante!
A ATENÇÃO NAS PEQUENAS COISAS GRANDES COISAS REVELA.
É não podemos deixar passar despercebido o nosso dia: a toalha que forra a nossa mesa, o pão fresco, a manteiga farta. Essas coisas tem um encanto, não é verdade? A saída para o trabalho. Deus lhe deu o trabalho, que coisa boa! E você pensa:
 - Eu sou um ser em movimento, em ação, cooperando com essa massa imensa que é a humanidade. Meu trabalho tem um significado para tantas pessoas e um significado para mim. É só um instante e tudo isso vem à sua mente.
Um instante de verdade, um momento de caridade, em que você abre o seu coração com a vida. O ônibus que o pega, a condução que o leva pelo caminho.
É muito bom viver, estar aí reencarnado nas coisas da vida. É bom demais. Mas você precisa assumir você mesmo. Meu Deus, quantos dias de cegueira! Quanta dor ajuntando olheira, debaixo dessa aflição. Minha gente, pode você viver sem coração? Pode você esquecer todas as coisas reais da vida e se deixar levar por esse monte de ilusão? Não pode mais.
Na loucura que nos invade, nas tentações de toda vida, seja ela física, seja ela depois da morte, ainda temos a responsabilidade da disciplina da nossa vaidade. Se você pensar, você que está aí, senhor absoluto de tudo o que acontece dentro de você, vai ver que precisa demais ter a bondade de dar a você mesmo alguma coisa de bom, se acharque tem o direito de merecer. Precisa voltar a fazer amizade consigo e voltar a se olhar com amor.
Voltar é aceitar o que se é. É rever o próprio valor, porque se você continua na arrogância, querendo ser o que você não é, querendo transformar a sua pessoa naquilo que não pode ser, você vai acabar sem poder. Vai acabar vazio, esquecido, desvalorizado, reprimido, sofrendo o abandono que você mesmo plantou.
É, minha filha, não tem mais nada para você fazer na vida, senão perder a sua arrogância. A arrogância, que, para ser perdida, deve ser primeiro reconhecida. Arrogância, que é a exigência de qualquer sorte, mesmo mascarada de responsabilidade. A arrogância, que em termos de exigência, é forçar a vida me favor da vaidade. Pense nisso, minha filha, que ser humano nenhum vai evoluir forçado, que cada lição que o homem aprendeu foi porque ele se amou de verdade.
Se você pensa que a natureza vai se curvar às sua exigências, você vai ser uma ignorante, e ignorante por excelência. Você precisa reconhecer que, no dia-a-dia do melhor da vida, é preciso ter muita paz, se render, minha filha, porque senão você pensa que está indo na subida, mas está escorregando numa imensa descida. Pare para pensar:
 - Meu Deus, como é que eu sou arrogante? Eu sou arrogante quando não me gosto, quando não me aceito. Sou arrogante quando brigo comigo, quando me culpo, me maltrato, me escondo e me envergonho. Sou arrogante quando quero me consertar, quando quero fazer de mim alguma coisa melhor sem ao menos saber se tenho agora condições para isso.
É, a intenção pode ser boa, mas a ação ainda é uma violação da natureza e do fluxo natural das coisas.
Pare e pense que, querendo ser perfeita, você criou a imperfeição. Você está estragando a obra de Deus nos caminhos da perdição. Pense nisso, minha filha, porque, se você não pensar,  a vida vai fazer com que você tenha que olhá-la por meio do sofrimento.
Depois, você, que não compreende nada do que acontece, fica no lamento, como se fosse vítima, mas vítima do próprio esquecimento. Olhe, minha filha, chegou o momento; chegou o momento de repensar muito sério em você. Não porque você queira ir para o reino de Deus na vaidade de ser um anjo, mas na simplicidade de quem aprendeu que a melhor coisa, para se viver feliz, é se amar. É viver com alegria, com simplicidade, sendo apenas você, uma pessoa que é como é, no corpo que tem, do jeito que está, com o seu modo simples, desembaraçado, sem se preocupar em errar ou acertar.
Todo mundo que está preocupado com o erro, preocupado se vai dar certo, preocupado com a vida do outro, enquanto a sua está ali no esquecimento é porque forçosamente, não está certo no pensamento. Está exatamente querendo o impossível. Se você inveja o outro, na apreciação da qualidade e da conquista que o outro obteve, é porque você mesma não soube e não manteve a sua.
Você precisa olhar para si. Não há nada igual a você. Deus estampa nessa sua forma que o espelho revela toda a beleza e a unicidade daquilo que Ele criou para você. É na adoração das formas individualizadas, do corpo original, dos sentimentos únicos, do jeito próprio, que nós devemos cultuar a religião da vida, porque Deus é a expressão da vida. Vida é Deus, em movimento e em ação.
É, minha filha, invisível, mas completamente tangível. Não há nada mais tangível do que Deus, nada mais presente, nada mais firme e mais forte que Deus. Deus, que é a vida em você, que é a forma, a cor, o som, Deus, que é a sensação constante da existência, a persistência eterna da permanência. É Deus. E você é esse produto. Deus é você. Deus se manifesta em você, que é o templo da vida, não é verdade?
A adoração da própria vida é aquele que se curva diante do simples, sem a pretensão de ser muito. Isso não quer dizer que, na sua estrada, você não cresça. Não cresça na responsabilidade, não cresça na posse dos bens materiais, na posse dos bens morais, na posse dos bens interiores. Mas o caminho da subida é o caminho da simplicidade; daquele que, com humildade, aceitou a si mesmo e abriu o coração na imensidão da certeza; do anjo da caridade; aquele que mora em seu peito; aquele que cobre no leito de proteção e carinho para que você, no dia seguinte, acorde completamente renovado; aquele que só fica com você quando você tem a coragem de lutar contra o seu orgulho e ficar com Ele.
AQUELE QUE SUSTENTA A HUMILDADE JAMAIS SERÁ HUMILHADO.
Humilhação, dor, ressentimento e desamor, são para quem tem orgulho. Na humildade, as coisas são muito simples, são sem vaidade. Nada difere. E a realidade cósmica não se aprende nos livros ou depois de séculos de evolução. Ela está aqui, bem perto de você, dentro do seu coração. É a humildade, é a pequenez que engrandece.
Você que padece e que precisa de uma libertação, lembre sempre que você é um pingo de luz na pequenez da escuridão. E quanto mais pequeno você for, mais intenso será o brilho do seu coração. "

DO LIVRO " UM DEDINHO DE PROSA " - ATRAVÉS DE LUIZ GASPARETTO

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